sábado, 31 de julho de 2010

Jackiria Gino Lula Rezende


Nordeste: olhares que apontam para uma construção deturpada da História

A começar pelo título deste texto é bem pertinente discutir diversos olhares sobre o que é Nordeste. Olhares estes que direcionam para uma região construída a partir da homogeneidade cultural, social e econômica, conforme muitos discursos que se ouvem ainda hoje sobre tal espaço, algo não espantoso, pois se trata de uma construção elaborada por grupos de poder aquisitivo significantes e de maneira objetiva, conforme Durval Muniz de Albuquerque Júnior afirma “o Nordeste, como qualquer recorte regional, nasceu de disputas pelo poder, através de lutas políticas no interior do Brasil...como reação ao processo de declínio econômico e ao desprestígio político das elites nortistas” (p.1). Tratava-se de assegurar para si privilégios e não havia espaço para tantos “chefes”. Desta forma a imagem utilizada para tal criação foi a de um Nordeste de secas e miseravelmente sofrido. É quando esse discurso ganha força e começa a ser transmitido às outras regiões do Brasil, e infelizmente se faz presente, ainda hoje, muitos vestígios de tal.
Seja pela mídia ou no pouco contato entre as pessoas é que o Nordeste homogeneizado foi sendo formulado. As imagens de apelação do nordestino sofrido, que vive em condições subumanas de vida e constantemente é assolado pela seca, divulgaram e divulgam a realidade apenas da parcela que interessa aos políticos em relação ao Nordeste, pois assim se alcançam verbas para programas sociais que “combatem” tais problemas, na verdade isso fica só no papel.
No entanto, os próprios nordestinos muitas vezes se esquecem do local onde vivem e adotam algumas das características a que estão submetidos e faz seu uso em alguns casos contra os próprios nordestinos, algo bastante contraditório e sinalizador da falta de consciência do jogo a qual está submetido.
Muniz de Albuquerque ao discorrer sobre a questão de existir uma identidade nacional e isso ligado ao fato da criação do Nordeste, afirma que esta “é uma construção mental... Falar e ver a nação ou região não é, a rigor, espelhar estas realidades, mas criá-las. São espaços que se institucionalizam, que ganham foro de verdade” (1999, p.27).
Desta forma, de tanto ser induzido por discursos e imagens, cria-se formas de manipulação do imaginário social e coletivo. José Murilo de Carvalho, em sua obra Formação das Almas, fala com muita propriedade sobre a criação de um imaginário capaz de produzir a imagem de um povo homogêneo, com características que precisam ser preservadas para que se alcance um objetivo comum. Porém, ao analisar a população, em vários aspectos, do que se entende por região Nordeste, é claramente visível as diferenças, as particularidades de cada grupo que constitui este espaço. Portanto não seria viável o discurso de que haveria nesta região interesses políticos e econômicos comuns, cultura comum ou mesmo autenticidade nacional por não ter sofrido imigração estrangeira, algo desconstruído quando verificado a presença de mão-de-obra escrava na Bahia, ou seja, negros trazidos da África. Sendo assim caí por terra estas justificativas para criação do Nordeste.
Voltando ao preconceito contra o nordestino e a ignorância sobre tal, quando perguntado sobre o que entende por Nordeste, grande maioria das pessoas, inclusive nordestinas, afirmam ser a região do povo sofrido, do miserável, das secas e atrasada tecnologicamente. É triste, mas verídico, ouvir em pleno século XXI afirmações como do tipo “o Nordeste foi o primeiro a ser povoado” ou “onde se é uma região mais árida e seca do país, onde o número de pessoas com mais dificuldades sociais e econômicas”. A criação foi bem elaborada e seu discurso permanece enraizado. Na pesquisa de campo as respostas apontam para uma visão estereotipada e o mais desconfortável é que parte, em alguns casos, de próprios nordestinos. Eles não analisaram o fato de fazerem parte do Nordeste que definiram, e ainda, não levaram em conta suas diversidades e particularidades, e que existem nessa região espaços litorâneos, metropolitanos e interioranos.
Essa visão de lugar de seca e miséria só é desconstruída quando se tem acesso à visões como a de Muniz, que auxiliam no entendimento quanto à construção do Nordeste. Existem outras visões que apontam para um lugar de povo alegre, festivo, porém onde não há desenvolvimento, este também é um olhar manipulado que caminha para um viés de um local de povo preguiçoso e atrasado.
Considerando toda essa análise da construção do Nordeste, fica evidente que todas as relações de poder aí presentes incluem tanto o discriminado, quanto o discriminador, e que ambos fazem parte e atuam como agentes sociais históricos para reforçar ou desconstruir esta visão deturpada de Nordeste. Fica sempre, para quem conhece novos olhares desta região, o desejo de levar tal conhecimento adiante, a fim de banir este discurso manipulador e que ainda persiste.
tal conhecimento adiante, a fim de banir este discurso manipulador e que ainda persiste.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Resenha: Pro Dia Nascer Feliz


JARDIM, João. Pro Dia Nascer Feliz. Filme Documentário, produção TAMBELLINI Filme, São Paulo, ano 2006.

João Jardim nasceu em 1964, no Rio de Janeiro. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade da Cidade e estudou Cinema na Universidade de Nova Iorque. Participou do núcleo do diretor Carlos Manga, na TV Globo, onde realizou a minissérie “Engraçadinha” e editou “Memorial de Maria Moura” e “Agosto”. Editou diferentes trabalhos de Walter Salles e Eduardo Escorel para a TV independente. Foi assistente de direção em longas-metragens de Murilo Salles (“Faca de Dois Gumes”) e Cacá Diegues (“Dias Melhores Virão”). Diretor de “A Janela da Alma”, seu primeiro longa metragem que recebeu 11 prêmios nacionais e internacionais.
A produção do filme documentário Pro Dia Nascer Feliz recebeu uma indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Edição - Documentário, ganhou os Kikitos de Ouro de Melhor Filme - Júri Popular, Melhor Trilha Sonora, o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio da Crítica, no Festival de Gramado, ganhou ainda o prêmio de Melhor Documentário - Júri Oficial, o Prêmio da Juventude e o Prêmio Bombril de Melhor Documentário Brasileiro, na Mostra de Cinema de São Paulo.
O filme é apresentado em cenas coloridas e em preto e branco. A trilha sonora conta com Cazuza e Titãs, tendo como responsável Dado Villa Lobos. A produção é composta por cenas intercaladas e organizadas de modo a apresentar as realidades e particularidades dos alunos e professores, em suas determinadas regiões a partir de suas próprias falas, dirigido, portanto para adolescentes, professores e pais. O objetivo principal da obra é provocar uma reflexão sobre o tema educação de uma forma simples para despertar as pessoas de que a escola precisa ser prioridade. Outros aspectos debatidos são a questão da subjetividade e do comportamento dos envolvidos no processo de aprendizagem. Ele busca trazer uma outra visão para algo já conhecido, na verdade o filme quer apresentar o fato de que muitas coisas precisam ser feitas para mudar o quadro em que a educação se encontra.
O diretor João Jardim apresenta um panorama sobre as adversidades enfrentadas pelo adolescente brasileiro na escola, envolvendo preconceito, precariedade, violência e esperança. Adolescentes de três estados, de classes sociais distintas, falam de suas vidas na escola, seus projetos e inquietações.
Sem dúvida a leitura que se faz de uma produção como esta é de suma importância para futuros docentes se aproximarem, conhecerem e procurarem entender como se dão as relações nesse universo educacional. Nesse sentido são notórias as várias contribuições para quem o analisa por uma vertente crítica, desde as várias realidades apresentadas às falas de otimismo que apontam para a necessidade de se mudar a maneira de lidar com o conhecimento e como apresentá-lo aos alunos. Ainda contribui no que se refere à necessidade de introduzir outros profissionais na educação, além de professores, diretores, secretários, pois em muitas das vezes o professor acaba por fazer o papel que a sua formação não lhe permiti, como por exemplo, psicólogo, assistente social, pai e mãe, o que torna difícil a prática docente ser realizada com resultados positivos.
É um documentário que não apresenta falhas no decorrer de sua exibição, até porque se trata de falas expressas naturalmente de uma triste realidade na vida de professores, alunos adolescentes e confusos, de um sistema educacional fragilizado diante um quadro de professores que pressionam e outros pessimistas e descomprometidos, consequentemente alunos que sofrem com a pressão e com o descaso.
Nas imagens expostas das aulas muitos aspectos de um paradigma tradicional são detectáveis. Professores que não levam em conta o contexto, as vivências dos alunos, ou ainda aqueles que se prendem, no caso da disciplina de História, à grandes heróis, a acontecimentos isolados e formulam perguntas inadequadas aos alunos, entre outros elementos. No entanto o paradigma emergente aparece em uma das falas de uma professora como uma “luz no fim do túnel” para começar a se trabalhar com a educação de um modo conveniente e envolvente.
A falta de um mediador entre o aluno e o conhecimento torna a situação insuficiente para o êxito do processo ensino-aprendizagem. Os conflitos decorrentes de tal condição existem tanto nas escolas públicas como nas privadas, situação esta que comprova a necessidade de um mediador capaz de se enquadrar no paradigma emergente, que saiba realizar uma transposição didática e também que a está fazendo, que torne o conhecimento ensinável, levando em conta as aprendizagens dos alunos, para assim tornar os conteúdos significativos e as aulas mais produtivas, problematizadas e de inteira relação professor-conteúdo-aluno.
O título da obra “Pro Dia Nascer Feliz” é um indicativo da urgente e necessária mudança para melhorar significativamente não só a vida escolar, mas familiar, esta última que conforme observado em vários casos apresentados pelo filme influencia totalmente a produtividade em sala de aula.
Quanto às idéias que apresenta são claras e precisas, e não chega a ser algo totalmente desconhecido do meio educacional, mesmo assim não necessita de conhecimentos prévios, pois a linguagem é simples e fácil de ser apreendida. Jardim consegue apresentar uma abordagem inovadora ao partir das falas dos atores principais deste “filme problema” que é a realidade escolar, nada mais confiável que ouvir os próprios sujeitos do processo de ensino, levando em conta, é claro, as adversidades de cada região deste imenso Brasil.
Sem apresentar uma conclusão, até porque o processo de ensino-aprendiagem e suas relações sócio-culturais não é conclusivo, o autor contribui para um novo olhar sobre as dificuldades e necessidade tanto de professores e alunos como de toda a comunidade envolvida no universo escolar. Desta forma é de grande interesse para a comunidade escolar e familiar contribuindo para um convívio agradável e produtivo, onde o diálogo se torna o caminho mais vi para a solução dos problemas.

domingo, 11 de julho de 2010

Resenha do filme "1492: A Conquista do Paraíso" elaborada por Jackiria Gino Lula Rezende
TODOROV, Tzevetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo Martins Fontes, 2003.
1492: A conquista do paraíso (Título original “1492: Conquest of Paradise”). Direção de Ridley Scott. Roteiro de Roselyne Bosch. Local de lançamento: EUA / Inglaterra / França / Espanha: Paramount Pictures, 1992. 1 filme (148 min.): leg. Color.

O filme referido retrata o período em que Cristóvão Colombo, interpretado por Gerard Depardieu, vai em busca de novas rotas para se chegar às Índias em pleno século XV. Busca esta realizada em três viagens que se tornaram um marco na vida deste homem e de todos que o acompanharam. O descobrimento em si da América, foi marcado pelo desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habitantes do Novo Mundo e todas as ações que Colombo realizou para colonizar o continente que ele descobriu “por acaso”.
Na obra, Colombo a princípio é visto como um louco que desejava desvendar o impossível, o além-mar. Encontra muitas dificuldades para realizar seu desejo e financiar seu projeto, já que é considerado tanto por Portugal como pela Espanha um estrangeiro, e ele realmente o é. Porém ele consegue, não do dia para a noite e com muitas resistências, reverter essa situação. Ao convencer as duas lideranças principais da época, a nobreza e a Igreja, ele afirma propagar a fé católica e obter lucros para a Coroa espanhola, mais especificamente prometia encontrar ouro.
Em contraposição a essas idéias, pode-se afirmar que ele desejava não somente isso, mas principalmente descobrir novas terras e alcançar títulos por desbravar novos mares, o que até então estava fora de cogitação. Tzevetan Todorov afirma em sua obra A conquista da América: a questão do outro (2003) que “os lucros que ali devem haver têm apenas um interesse secundário para Colombo. O que conta são terras e sua descoberta.” p.17. Realmente o interesse de Colombo sempre se voltava para o seu projeto, ficando em segundo plano as outras descobertas que ali houvessem embora nunca descartadas.
Ao descrever Colombo, através de suas ações, o filme sugere uma imagem otimista, de um homem bondoso, amoroso e preocupado com o próximo. Segundo ainda Todorov, no que diz respeito ao trato com os povos deste Novo Mundo, Colombo foi muito cruel e indiferente, e todos aqueles que chegaram com ele.
O primeiro contato entre as culturas européia e indígena, se é que se pode chamar este último assim, é apresentado com um clima de hospitalidade, curiosidade e comunhão, porém a ambição falou mais alto e a batalha travada na busca incessante ao ouro ou quaisquer outras riquezas “acaba” em muito derramamento de sangue, e o que é pior de muitos inocentes. Colombo nada poderia fazer. Mas será que Colombo realmente se importava com o outro, como mostra o filme?
Está aí uma lacuna muito grande quanto aos reais motivos que o levaram a se arriscar tanto. Ele apenas pensava no bem de quem encontraria nas novas terras isso é perceptível nas cenas do filme. No entanto, ao analisar outras obras referentes ao assunto, fica claro que a obra apresenta “a descoberta da América” como uma paixão, aonde um homem deslumbrado por navegações, vai a busca desse novo mundo, novos ares, novas terras. Tudo isso, porém, sabemos que é produzido no intuito de convencer o público alvo de que foi realmente uma aventura alucinante e que no final, se é que existiu um final, deu grandes méritos ao Cristóvão Colombo. Ridley Scott em vários momentos faz uma camuflagem do Colombo descrito por Todorov. Este último vai além do que se imagina e o vê como um verdadeiro hermeneuta, com o dom de interpretar sinais. O filme apresenta isto, no entanto se percebe a superficialidade de como é tratado. Era este almirante um finalista que alcançava seu sucesso devido a essa façanha que convencia a “qualquer um”.
Um ponto, porém apresentado que é de grande aproveitamento para o desenvolvimento crítico, que leva a refletir sobre a forma de dominação praticada por Colombo e demais europeus, é sem dúvida a construção de um forte com um enorme sino, símbolo da Igreja Católica, afirmando ali a presença de “novos donos”. Sugere ainda a interpretação de que aquele povo não tinha religião, cultura e muito menos um DEUS e que precisavam urgentemente ser “humanizados” para a honra e glória do Altíssimo, o que desqualificava qualquer pré-conhecimento adquirido por eles.
Considerando, portanto o caráter informativo altíssimo, além de apresentar idéias que possam despertar o conformismo levando-nos a acreditar que a América foi realmente “descoberta” por Colombo, o filme é de total interesse a todos que buscam desenvolver várias leituras acerca desta “descoberta do continente americano”. É ainda importantíssimo aos que necessitam de um aprofundamento nesta, que podemos chamar de “viagem ao paraíso”. No entanto é necessário um pré-conhecimento de historiadores/teóricos dissertadores do tema abordado pelo filme, para assim analisa-lo num todo, com um olhar crítico e de caráter investigatório.


Postado por Jackiria Lula em 11/07/2010